terça-feira, 5 de novembro de 2019

Inícios e Fins

Prezada Vanessa,

Hoje abri novamente as anotações de minha bisavó.

"A serpente morde a própria cauda. Rasteja sobre sua própria barriga, devora mais um pouco de si.
Absorve sua própria essência.

Metamorfoseia-se.

É menos serpente por ter sido devorada ou é algo a mais por ter devorado a serpente?"

Naturalmente, me lembrei de você ao ler isso. 
Você, de todas as pessoas, sempre encrencou com a máxima "Sou a Besta para que a Besta não me torne", porque você enxerga um paradoxo descomunal onde há um simples conflito; e não a culpo por isso, já que não faz parte de sua natureza.

Você escolheu não entender quando decidiu trilhar o caminho que você segue hoje - e tudo bem que seja assim; você jamais precisou ser Besta ou serpente, e me faz sorrir lembrar que existem pessoas como você no mundo.
Somos, contudo, filhos da mesma maldição, não importa quão distintas sejam nossas escolhas: estamos fadados a sofrer constante mudança sem jamais perder a nossa essência.
Somos a mesma caminhada noturna de outono em uma paisagem que nunca para de mudar. 
Éramos serpentes ávidas por abocanhar a própria cauda, e, ao buscar sermos mais do que já eramos

nos perdemos

um


do



 outro.


Você pode não acreditar, mas eu abriria mão de ser um dragão se pudesse rastejar contigo novamente.