Não sei quando comecei a escrever. Talvez tenha sido na adolescência, talvez pouco antes disso. Mas sempre escrevi pra mim. E sempre evitei escrever para os outros porque a escrita pra mim nunca foi sobre passar uma mensagem adiante, mas sobre colocar os pensamentos em ordem. E, à medida em que eu colocava minha cabeça em ordem, eu comecei a me sentir confortável para mandar uma ou outra mensagem.
Eu não sabia o que era um blog até minha amiga Vanessa me dizer que eu deveria ter um pra assustar as pessoas com os absurdos que saem da minha boca. Me sinto muito velho dizendo isso, mas foi assim que aconteceu. E ainda tenho que ouvir que eu digo absurdos. Ela era uma boa amiga, apesar dessa forma estranha de expressar carinho e preocupação. E aí, anos depois, eu sentei na frente deste mesmo computador pra criar o tal blog, depois de muito ler a respeito.
Mas eu não tinha um nome pra ele. E eu me lembrei de uma noite que passei com Vanessa.
Eu e Vanessa nos conhecemos como jovens adultos festeiros e ainda sem saber muita coisa sobre o que era ser adulto. Nossos amigos em comum diziam que éramos um casal perfeito - e nós reagíamos com cara de nojo. Talvez fôssemos uma ótima dupla, disso eu não discordo; mas casal? Improvável. O que nos unia era principalmente a nossa diferença na forma de pensar. Vanessa era sempre muito extrovertida, muito decidida, muito colérica. E eu...bem, eu não.
Mas nessa noite, em específico, ela estava mais parecida comigo: introspectiva, silenciosa. Dividíamos uma mesa na Calvarium, uma boate que íamos vez ou outra, e a luz fraca e indireta do lugar tornava mais palpável a dor que ela sentia. Perguntei duas vezes se ela queria falar a respeito do que tinha acontecido, só para ser respondido com goles silenciosos do conhaque barato que ela sempre comprava.
Ela quis acender outro cigarro, mas eu segurei a mão dela. Primeiro com certa pressa, como quem cobra uma resposta. Depois, com carinho. E ela olhou pra mim e me disse as palavras mais doces que poderiam sair de sua boca naquele momento: "Não me enche, Albert." Eu não enchi. Mas também não soltei a mão dela.
E ela olhou pra fora, pela janela, e eu olhei logo em seguida. A lua brilhava cheia no céu, mas não como de costume. Ela brilhava em um tom suave de vermelho, e foi o suficiente para nos manter em silêncio por tanto tempo que não sei quanto tempo se passou. Ela não soltou a minha mão; na verdade, ela a segurou de volta.
Eu ainda não sei o que aconteceu com ela naquele dia. Quando ela sumiu, eu soube que a única forma de eternizá-la seria sob uma lua vermelha. Brega isso, né? Eu sei. Mas é brega de uma forma divertida. De uma forma que a faria olhar com desgosto e revirar os olhos. Então eu sei que, de uma forma ou de outra, ela está aqui de verdade.