terça-feira, 24 de novembro de 2020

Melancólico

    Eu bem tentei avisá-lo de que seria melhor ficar em casa. Sob a proteção do meu teto - não importa o quão decadente fosse a situação da minha casa naquela época - ele estaria seguro.

    Não insisti uma terceira vez. Eric partiu, e eu jamais o veria novamente. Por três noites ele se abrigou em minha residência. Cedi a ele meu próprio quarto, o único que estava limpo, até então, e dormi no quarto de hóspedes para que ele pudesse se sentir confortável. Mas não havia cama aquecida ou lençóis limpos nesse mundo que pudessem acalentar a alma melancólica do jovem Eric. Ele não era meu amigo, mas tínhamos um amigo em comum, e havíamos trocado algumas palavras em mais de uma ocasião; muito embora eu jamais venha a saber que opinião ele tinha sobre mim, sempre tive carinho por ele, ainda que pouco nos conhecêssemos. 

    Eric bateu em minha porta, trêmulo, silencioso, sujo de lama e encharcado pela chuva. Eu não perguntei o que tinha havido, pois não cabia a mim perguntar o que ele não se dispôs a dizer. Era necessário, primeiro, confortá-lo. Permiti que tomasse um banho quente e lhe dei roupas limpas, embora minhas melhores roupas ainda fossem um ou dois números maiores do que o de seu corpo esguio. Arrumei o quarto como pude enquanto ele se lavava de seus traumas e das marcas físicas que eles deixaram, e o guiei ao meu quarto quando ele se sentia limpo. Ele agora tremia menos, e até mesmo esboçou um sorriso.

    Me lembro de seu olhar fugaz enquanto me agradecia, sorrindo timidamente enquanto me agradecia pela estadia e se desculpava por aparecer sem avisar. Ofereci minha mão a ele, e ele a tomou. Não dissemos nada. Ele suspirou. Deixei-o sentado no sofá e preparei a melhor refeição que pude - não era muito. Minha despensa nunca foi generosa, e já havia muitos anos que eu não cozinhava, mas ele se demonstrou satisfeito com a atenção e o cuidado. E eu fiquei feliz com a satisfação dele.

    Esperei que ele terminasse de comer antes de contar-lhe sobre as condições de sua estadia. Eu não o perguntaria sobre o ocorrido, e ele não seria obrigado a falar. Mas ele poderia ficar por três noites, não contando a noite de sua chegada. Eu lhe alimentaria e lhe daria roupas limpas, e ele ficaria no meu quarto até sua partida. Em troca, tudo o que eu lhe pedia era sua sinceridade. Ele concordou, é claro.

    Fui tão hospitaleiro quanto pude, e embora tenha precisado me ausentar na noite seguinte, fiz questão de ser breve em meus assuntos particulares. Quando retornei, Eric já estava dormindo, mas havia me deixado um recado sobre a mesa de centro.

            "Espero que a gente possa se falar assim que possível. Quero te contar o que houve."

    Demorei a dormir, pensando no que poderia ter acontecido, e só acordei no início da noite com os sons que Eric fez enquanto procurava suas roupas com certa pressa pelo meu quarto. Saí do quarto de hóspedes e esbarrei nele no corredor. Embora ele supostamente quisesse conversar, não quis me responder quando eu perguntei o que estava acontecendo. Ele disse que voltaria para contar, mas que precisava sair naquele instante. 

    Insisti para que ficasse. Era mais seguro. Ainda havia tempo. Mas algo não permitiu que ele me ouvisse com clareza, e ele partiu pela porta da frente sem sequer se despedir. Ele só disse "me desculpa". 

    

    Eu esperei tolamente pelo seu retorno, o que - é claro - nunca aconteceu. Quem apareceu em seu lugar foi nosso amigo em comum, para me informar não que Eric havia desaparecido da cidade, e sim para me perguntar para onde ele tinha ido. O convidei para entrar e lhe ofereci um chá, que ele negou. Sentamos na sala, e expliquei o ocorrido. Ele me agradeceu pelo tempo que disponibilizei, e também por ter abrigado um amigo tão querido para ele em seus últimos dias na cidade.


    Agora tenho o fantasma de Eric caminhando em minha casa. Ainda ouço o chuveiro ligado quando passo pelo corredor, e também o som dos talheres na sala quando estou na cozinha. O recado permanece sobre a mesa de centro. Talvez algum dia ele apareça para contar o que houve.