quarta-feira, 20 de março de 2019

Mau presságio

Jen,

Sonhei contigo essa manhã.

Nós subíamos no topo do prédio mais alto da parte mais alta da cidade, porque sabíamos que era a hora.

Sabíamos que aquela era a nossa última noite, a Noite Final das Noites Finais.
Sentamos na beira do prédio. Sentimos a vertigem, que nem sequer sabíamos ser capazes de sentir de novo. O mundo todo estava ali, sob nós.

A sua mão tocou a minha, e vimos os primeiros raios de sol. Eles brilhavam vermelho e laranja e amarelo, e quanto mais numerosos eles se tornavam, mais difícil ficava de olhar qualquer outra coisa, ou sentir qualquer outra coisa que não o calor sobre a pele.

Começou fraco.

E então, não havia nada.
Diga a verdade: o que isso significa pra você?

segunda-feira, 4 de março de 2019

29 de agosto de 2016

Eram 18:35 quando despertei.
O cheiro da madeira úmida pregada nas janelas já não me incomoda há muito tempo, mas hoje provavelmente é a primeira vez que paro para fazer essa observação para mim mesmo.

Eu estive pensando em    Existem muitas outras coisas que já não me incomodam há muito tempo, mas ainda há muito na minha mente; e há muito eu não parava para reparar nas pequenas coisas. Em como elas me afetam, ou como deixaram de me afetar - as minúcias do dia a dia.

Me olho no espelho, como sempre faço após levantar. Normalmente eu enxergaria, no meu reflexo, apenas um invólucro, uma carcaça que carrega o que restou da minha alma para cima e para baixo. Mas não hoje. Hoje eu vejo só um homem cansado, um homem que se desconectou de tudo e agora sofre ao tentar buscar tudo o que perdeu. Eu vejo olhos caídos e um sorriso amarelo. Ao menos eu ainda consigo sorrir

O ar está diferente nessa noite de hoje. Estagnado, denso. Como quando uma tempestade está prestes a chegar. Como costumava ficar  Eu sinto a umidade lamber a minha pele fria, e de repente eu me sinto menos confortável do que estava sob as minhas cobertas. Levantar certamente foi um plano ruim.

Hoje eu decidi não sair de casa: não pela falta de interesse nas coisas lá fora, mas provavelmente porque hoje não sou boa companhia. Aproveito este sinal como uma oportunidade de fazer as pazes com o meu lar e buscar conforto nele novamente. Como eu já disse, nas pequenas coisas.
Não é difícil ouvir, na minha cabeça, Vanessa dizendo que eu deveria sair mais e largar essa vida de aranha na teia o dia inteiro. Ela certamente teria me convidado para curtir a brisa noturna ou caminhar até a praia despretensiosamente, apenas para eu perceber que era uma armadilha para tomar alguns (vários, na verdade) drinques.
As chamas das velas estão trêmulas, mesmo que não haja ar corrente dentro de casa.

Eu sinto que deveria fazer isso mais vezes. Buscar me sentir confortável com o que está à minha volta. Botar o lixo pra fora, descobrir de novo os cheiros, as texturas, os sons. E você? O que acha? Não me parece o tipo de coisa que você faria, mas imagino que te faria muito bem mudar um pouco. Já faz quase 20 anos. 

Não sei como escrever uma despedida aqui, desculpe. Nada parece apropriado o suficiente.

A.