O cheiro da madeira úmida pregada nas janelas já não me incomoda há muito tempo, mas hoje provavelmente é a primeira vez que paro para fazer essa observação para mim mesmo.
Me olho no espelho, como sempre faço após levantar. Normalmente eu enxergaria, no meu reflexo, apenas um invólucro, uma carcaça que carrega o que restou da minha alma para cima e para baixo. Mas não hoje. Hoje eu vejo só um homem cansado, um homem que se desconectou de tudo e agora sofre ao tentar buscar tudo o que perdeu. Eu vejo olhos caídos e um sorriso amarelo.
O ar está diferente nessa noite de hoje. Estagnado, denso. Como quando uma tempestade está prestes a chegar.
Hoje eu decidi não sair de casa: não pela falta de interesse nas coisas lá fora, mas provavelmente porque hoje não sou boa companhia. Aproveito este sinal como uma oportunidade de fazer as pazes com o meu lar e buscar conforto nele novamente. Como eu já disse, nas pequenas coisas.
Não é difícil ouvir, na minha cabeça, Vanessa dizendo que eu deveria sair mais e largar essa vida de aranha na teia o dia inteiro. Ela certamente teria me convidado para curtir a brisa noturna ou caminhar até a praia despretensiosamente, apenas para eu perceber que era uma armadilha para tomar alguns (vários, na verdade) drinques.
As chamas das velas estão trêmulas, mesmo que não haja ar corrente dentro de casa.
Eu sinto que deveria fazer isso mais vezes. Buscar me sentir confortável com o que está à minha volta. Botar o lixo pra fora, descobrir de novo os cheiros, as texturas, os sons. E você? O que acha? Não me parece o tipo de coisa que você faria, mas imagino que te faria muito bem mudar um pouco.
Não sei como escrever uma despedida aqui, desculpe. Nada parece apropriado o suficiente.
A.
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