quinta-feira, 6 de junho de 2019

Octavia

Enquanto alguns debatem se você é não uma impostora se mascarando como um sangue que não é seu, se você é ou não uma degenerada ou uma desgarrada, eu não estou aqui para questionar a sua identidade e nem a sua índole.

Estou aqui, Octavia, para te lembrar que, independente do rótulo, nós somos aberrações colocadas no mundo contra nossas vontades. Não pedimos para nascer, e ainda assim buscamos qualquer propósito para continuar existindo que seja mais do que...só sobreviver. 

Ultimamente, tenho ouvido suas canções ecoarem incessantemente dentro da minha cabeça. Uma mera nota aleatória em meu cotidiano me lembra de uma canção inteira, e uma canção me lembra da outra. Quando me dou conta, tudo o que existe na minha cabeça é a sua voz cantando, e eu já não consigo me concentrar em mais nada. O que seria fantástico se eu não tivesse coisas pra fazer.

Eu já não sei mais qual é o meu propósito - se é que algum dia soube - e não consigo me focar para buscar um novo. Eu tento encontrar as respostas pra quem eu sou de verdade, e tudo o que eu encontro são mais perguntas. Veja, eu passei grande parte dessa existência em função dos outros. Agora que estou vivendo por mim e para mim, eu me encontro perdido.

Muitos foram (e ainda são) aqueles que me buscam pelo meu conhecimento. Acreditam que eu tudo sei, e que sou capaz de responder qualquer pergunta, qualquer dúvida, qualquer questionamento; acham que tenho todas as respostas nas minhas mãos. E, enquanto é verdade que tenho vasto conhecimento em muitas áreas - e não ouso pedir perdão pela falta de modéstia - também é verdade que muitas outras deixei de lado. Pouco me desperta interesse saber sobre certas futilidades que movem tanto o mundo dos lobos quanto o do rebanho; por isso, algumas nuances de interações sociais me escapam por entre os dedos. Mas não corro atrás delas; não eu.

Mas o ponto não é esse: o ponto é que, em suas ilusões seguras de acreditar que eu tudo sei, as pessoas ao meu redor jamais se preocuparam em questionar o que elas sabiam. Elas formaram uma identidade para mim em suas mentes, e, ao se sentirem confortáveis com ela, jamais se preocuparam em descobrir quem eu sou de verdade.

Isso as frustra quando descobrem que meu conhecimento não é ilimitado, porque eu deixo de atender às expectativas que elas criaram. E, desconfortáveis em descobrir sua própria ignorância através da minha, culpam-me por não ser quem queriam que eu fosse. Eu aceito - embora relutantemente - este papel de adversário, e o visto com o orgulho ferido, mas com a sensação de dever cumprido. Que todas as vendas caiam e todas as mordaças se afrouxem, e que todos contemplem com júbilo e desespero essa figura sem forma que lhes enriquece em conhecimento do mundo ao mesmo tempo em que os amaldiçoa com a descoberta da amplitude da sua ignorância.

Eles acreditam que fizeram de mim quem eu sou, e lhes horroriza a ideia que o verdadeiro eu não possui forma. Agora que estou livre dessas amarras, me resta descobrir qual forma eu devo tomar.

Mas é tão, tão difícil de tomar qualquer decisão quando você canta incessantemente nos meus ouvidos, Octavia. Tão difícil.

Eu não quero mais só sobreviver. Eu quero mais que isso.
Me cante uma última canção que me faça lembrar do que eu sou.

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