Após descer lances e mais lances de escadas, após navegar um labirinto sem tamanho de corredores retos e curvos, encontrei uma escada que subia em vez de descer. Sabia que não era uma das que eu já havia descido pois ao seu lado não constava minha marca na parede: um semicírculo vermelho com sua abertura virada para cima, feita com tinta a óleo. A umidade na parede não diluiria a tinta, então eu sabia que não havia passado ali antes. Subi as escadas pelo que me pareceu que talvez estivesse, depois disso, três andares acima do ponto mais baixo que encontrei.
E me encontrei, então, num grande salão. As paredes não eram úmidas, e o ambiente não era decrépito como as dúzias de salas que encontrei antes, muito embora ainda tivesse passado por maus bocados diante da cruel e impiedosa passagem do tempo. Aqui as pedras eram cinzas e brancas, adornando as paredes arredondadas entre as pilastras que sustentavam uma abóbada feita não de tijolos, mas de pedra esculpida. As pilastras tinham, ao longo de seu comprimento, temas florais que me pareciam ter sido pintados à mão há muitos e muitos anos, e somente as tintas nas frestas de cada ornamento gentilmente esculpido não havia desvanecido.
As pilastras se curvavam para sustentar a abóbada, formando arcos em uma obra arquitetônica advinda de mentes muito inspiradas pela beleza do mundo, e equidistantes destas pilastras estavam janelas com diminuta altura, mas generosas em sua largura. Desenhos abstratos em vidros coloridos faziam com que a luz natural entrasse no salão brilhando em azul e verde e vermelho e amarelo. Eu havia alcançado a superfície novamente. Mas algo me roubava o impulso de partir. Talvez fossem os paralelepípedos no chão, dispostos em uma espiral que começavam na escadaria pela qual subi e terminavam no centro do salão.
Ora, o salão estava vazio, se não fosse por mim e pela forma no centro dele. De onde vim, assemelhava-se à forma de uma lápide muito grande, com a base larga e seu topo arredondado. Percebi, ao circundar o salão, que eu não estava sozinho. Uma figura estava presa à lápide, ajoelhada no chão e com grilhões em seus pulsos, estendendo seus braços para o alto e para os lados. Me parecia uma figura muito velha, indistinguível para mim seu sexo. O pouco cabelo que lhe restava era ralo, oleoso e branco. Sua pele era cinzenta com manchas esverdeadas, e sua figura emaciada parecia ter perecido há muito, com sofrimento em sua expressão. Senti pena de quem quer que fosse aquela pessoa, mas o sentimento durou uma fração de segundo antes de ser substituída pelo horror de ver o que a afligia: um dispositivo em aço e madeira, com pés que davam suporte a uma afiada estaca apontada para o peito da criatura sem perfurá-la.
Qualquer movimento lhe seria impossível. Se feriria mesmo ao respirar fundo, e sair dali claramente nunca havia sido uma opção. Me aproximei para averiguar o aparelho meticulosamente forjado para o tormento; talvez meus passos tenham feito barulho demais, ou talvez o calor e a luz da tocha houvessem alarmado a criatura que, por escárnio de alguma força superior, não estava morta. Seus olhos assustados me fitaram com a mesma curiosidade que eu retribuía em meu próprio olhar. Não dissemos nada pelo que pareceu uma eternidade. Analisei-a como um entomólogo conta os segmentos de um inseto. Ela devorou-me com os olhos com a curiosidade de uma criança que vê um bicho novo pela primeira vez - ou quem sabe com o choque de um idoso revendo algo de seu passado que há muito havia se perdido.
Achei que, se a criatura falasse, pudesse me perguntar se eu era real. Ou talvez me perguntaria se eu poderia tirá-la dali. Mas ela piscou lentamente e inclinou sua cabeça para um lado. Sua voz era fraca e grave. E eu a ouvi dizer "Como se chama?". Assustei-me, mas fiz meu melhor para não transparecer. Retruquei em um tom gentil: "Não sei se meu nome teria algum uso aqui. Você tem um nome? E se não tem, já teve um, algum dia?"
Sem tirar os olhos de mim, a criatura inclinou sua cabeça para o outro lado, pensativa. Não parecia estar respirando. Se estivesse, a estaca já a teria ferido. Ela respondeu: "Já tive um nome, mas não sei quanto tempo faz."
Virou seu olhar e se perdeu na imensidão do salão pelo que imagino que fosse a infinitésima vez. Sussurrou alto o suficiente para que eu a ouvisse: "Mas desde muito antes de vir pra cá já me chamavam de estranho. Talvez seja isso. Eu sou o Estranho."
Assenti com a cabeça, mas o Estranho me cortou antes que eu pudesse pensar em dizer algo: "Seu nome não tem uso aqui. Mas lá fora, sim. Que nome seria usado lá fora?"
Disse-lhe meu nome. Sua face cadavérica esboçou um sorriso. Os dedos esqueléticos de suas mãos se moveram enquanto o Estranho ruminava algum pensamento, mas o interceptei: "Que faz um estranho num lugar como esse? Que crueldade pode ter cometido para que alguém cometessa tamanha crueldade contigo? Ou que tipo de vilão poderia ter maquinado essa tortura para uma boa pessoa?"
Mas o Estranho não tinha uma resposta para mim, e seus olhos vazios me disseram isso. Talvez a resposta não tivesse sido somente esquecida: ela poderia estar entremeada a um sem-número de sonhos que, com o passar do tempo, tornaram-se indistinguíveis da realidade. Me sentei no chão, virado para ele, e deixei a mochila ao meu lado. Eu não tinha mais água ou comida para que pudesse me nutrir e nem para que pudesse oferecer a ele. Minha tocha se extinguiu, mas a luz dos vitrais ainda permitia que nos enxergássemos, e passamos algum tempo nos encarando.
Mas o Estranho não tinha uma resposta para mim, e seus olhos vazios me disseram isso. Talvez a resposta não tivesse sido somente esquecida: ela poderia estar entremeada a um sem-número de sonhos que, com o passar do tempo, tornaram-se indistinguíveis da realidade. Me sentei no chão, virado para ele, e deixei a mochila ao meu lado. Eu não tinha mais água ou comida para que pudesse me nutrir e nem para que pudesse oferecer a ele. Minha tocha se extinguiu, mas a luz dos vitrais ainda permitia que nos enxergássemos, e passamos algum tempo nos encarando.
Não me ofereci para remover a máquina que o torturava, ou para abrir seus grilhões. Ele não pareceu interessado em uma possível liberdade. Fiz algumas perguntas sobre seu passado, mas ele não sabia me responder nenhuma. Então restou somente o silêncio.
Ao contrário de como o Estranho me parecia, contudo, eu ainda sentia fome, sede, cansaço, sono, dores. Me levantei e pus a mochila às costas, e ele não levantou objeção alguma. Eu não sabia como me despedir, mas fiz algum esforço. "Gostaria que eu viesse te ver mais vezes?", perguntei a ele como se eu tivesse plena certeza de que encontraria meu caminho de volta. Ele acenou que não com a cabeça.
"Aqui não é lugar para ninguém. Se precisa ir, vá.", ele disse de maneira solene, sem pesar em sua voz cansada. Peguei minha tocha apagada no chão e o fitei com certa compaixão. Eu disse: "Então é um adeus.", ao que ele assentiu em silêncio. Comecei a caminhar na direção da larga porta de madeira, no extremo oposto do salão em relação à escadaria por onde subi, e fui interrompido por um pigarro dele.
Virei-me para ver seu rosto uma última vez antes de partir. Ele me disse: "Você vai se lembrar de mim lá fora?" Eu sorri e, sem titubear, disse-lhe: "Em minha crença dizemos que o que é lembrado vive. Mas não posso prometer que você vai viver pra sempre."
O Estranho sorriu de volta. Sua voz, dessa vez, saiu mais firme e clara que outrora: "Quando me der vida... poderia me dar um nome também? Eu gostaria de ter um nome." Respondi afirmativamente, com um sorriso. Ele fechou os olhos e sua cabeça pendeu novamente, como se um sono profundo o tomasse de repente. Foi a última vez que vi Nayim - significando gentil, reconfortante, calmo. Ou, também, aquele que adormece.
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