Eu cheguei cedo no pub, naquela noite. Foi na última sexta-feira do mês de outubro, e o tempo estava começando a esquentar, embora tivesse chovido o dia inteiro - atípico para o período. Eu não ligava muito pra chuva, então só coloquei a minha jaqueta por cima da minha melhor roupa, que por si só não era exatamente uma roupa incrível; mas era a melhor que eu tinha.
Chequei meu celular inúmeras vezes enquanto estava no metrô. Primeiro pra saber se eu estava de fato indo na direção certa, e depois pra saber se ela havia respondido alguma das minhas mensagens. Nada. Eu normalmente evito mandar mensagens demais para os meus amigos com o receio de incomodar ou de parecer carente demais, mas eu realmente precisava que Octavia soubesse que eu estaria presente. Era a primeira vez que ela cantaria em público em vários meses, e a mensagem dela me convidando me deixou alegre, mesmo sendo um tanto impessoal, daquelas que as pessoas só copiam e colam. Eu disse que com certeza estaria presente e que mal podia esperar para vê-la e ouvi-la novamente.
Aquela primeira canção jamais saiu dos meus ouvidos, mas eu ansiava por ouvir mais.
Eu precisava beber alguma coisa pra me sentir mais relaxado. Eu nunca fui de sair de casa de estômago vazio, mas o tempo que passei em reclusão me fez esquecer dos hábitos que eu tinha antes disso. Bebi apenas o suficiente pra parar de me sentir tão afoito, e logo achei um lugar de onde eu pudesse ver o palco sem precisar ficar perto demais de ninguém.
O ambiente era confortável, apesar das múltiplas conversas paralelas e risadas atravessando o salão. A banda se preparava no palco, afinando seus metais e se divertindo com pequenos improvisos. Pude contar seis deles no palco, mas nada dela aparecer. Era bem a cara dela. Sabia que ela faria uma entrada à altura de seu talento, e eu estava disposto a esperar para ver isso.
O pianista começou a tocar sozinho. A iluminação mudou na mesma hora de uma forma dramática; eu sabia de qual mente tinha saído aquela ideia, e sorri ao me lembrar das luzes e do piano no apartamento dela.
O contrabaixo e a bateria entraram logo em seguida, ditando o ritmo da música logo após a introdução do piano, até que ela surgiu.
E quando ela surgiu a luz dourada se refletiu na sua pele de cobre e no seu vestido de prata.
Octavia não precisava de um microfone pra que o pub inteiro a ouvisse. Todos os queixos caíram, inclusive o meu. E ela caminhou solenemente até o centro do palco, onde estava seu microfone, tal qual ela caminhou para iniciar o nosso dueto, a canção que embalaria nossa danse macabre, mas - ao contrário de todas as coisas mundanas, contudo - a voz dela se perpetuaria pra sempre na minha mente.
Cada nota que saiu de sua boca era impecável. O saxofone, o violão e o piano complementavam a harmonia, mas empalideciam perto do efeito que Octavia tinha nos ouvintes. Não se disse uma palavra por toda a duração da primeira música e, quando esta se encerrou, levou algum tempo até que surgissem os primeiros aplausos de todos nós, ainda atordoados com o que havíamos acabado de testemunhar.
Se as artes plásticas são como embelezamos o espaço e a música é como embelezamos o tempo, posso dizer que aqueles foram alguns dos minutos mais bonitos de todas as décadas que vivi. Outras músicas vieram, depois disso.
Agora as pessoas estavam mais confortáveis, passado o choque de ouvi-la pela primeira vez, e haviam pequenas conversas em sussurros aqui e ali. Enquanto isso, no palco, Octavia encantava pela visão e pela audição. Ela nunca fora uma mulher de trejeitos exagerados no palco, mas ela sabia exatamente como e quando se mover para chamar a atenção. Além dos gestos sutis e encantadores, era como se o olhar dela pudesse ver a alma de cada um dos presentes. E ela viu a minha.
Por alguns segundos o olhar dela e o meu se chocaram, e durante estes segundos ela cantou com um sorriso no rosto. E eu sorri também, claro. Ali, do cantinho em que estava, cantei alguns trechos da música junto dela. Eu, obviamente, não canto tão bem assim, e nem nunca tive essa pretensão.
Mas ouvi-la de novo me fez sentir confortável o suficiente pra querer cantar também. E isso me fez lembrar dos tempos em que o mundo era mais colorido pra mim.
Octavia tem esse efeito nas pessoas, de lembrá-las que o mundo pode ser um tanto mais bonito se eu me permitir que as luzes lá fora brilhem verde e rosa e azul sobre mim. Que não faz mal errar um tanto de notas no piano, que não importa se meu canto não é tão afinado, contanto que a canção me mova.
Cada música que acabava era respondida com estrondosos aplausos. Ela agradeceu à banda, aos produtores e à dona do pub antes de sair, e eu não a vi mais naquela noite. Voltei pra casa debaixo de uma chuva fina e fria, embora o tempo estivesse quente, mas não liguei pras roupas molhadas. Andando pelos quarteirões mal iluminados, ousei assobiar um trecho de uma canção - a primeira de todas.
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