Há algum tempo eu apaguei um e-mail importante da minha caixa de entrada. Era de um amigo de longa data. Eu não abri o e-mail, mas sei do que se tratava: ele queria um reencontro.
A essa altura eles já devem ter se reunido, os meus amigos dos tempos de colégio. Não sei o que pretendem com essa reunião depois de tanto tempo, mas eu posso sentir os ventos da mudança soprando para eles na cidade grande.
Por aqui o ar continua estagnado, abafado. A torneira continua pingando na pia da cozinha, e eu já não me lembro se parei de contar o gotejar na casa dos 500 ou dos 600, então eu começo de novo, e de novo, e de novo. A umidade já estufou a madeira dos móveis, e as cortinas velhas parecem cada vez mais pesadas em meio ao mofo preto e aos ácaros e à poeira.
Eu não sei quanto tempo faz que apaguei aquele e-mail porque eu não sei que dia é hoje, mas me pego pensando em como seria se eu tivesse ido. Será que eles estão bem? Será que todos os meus três amigos estavam (ou estarão?) presentes?
A minha casa não sentiria minha falta, a menos que os ratos no sótão tenham desenvolvido algum apego. Já não há comida na despensa para o deleite de formigas e baratas, nem conforto proporcionado pelo ar condicionado. Eu me deparo vestindo as minhas melhores roupas e me sentindo elegante com elas, apesar dos pequenos buracos feitos pelas traças. Ninguém repararia, é claro. Eu sinto a textura do couro falso da minha jaqueta, que descasca e pulveriza ao toque na altura do ombro esquerdo. Eu percebo o aço enferrujando na minha fivela. Um mero detalhe. Me sinto elegante, quase poderoso.
Meus amigos ficariam felizes em me ver? Surpresos, talvez? Eu nunca fui o tipo de pessoa que mantém contato por muito tempo. Não sei se eles me reconheceriam, ou mesmo se eles esperariam (ou esperam?) que eu vá. Estou nervoso. Por que estou me arrumando? Eu nem sei a data da reunião. Mas não importa.
Sair um pouco vai me fazer bem.
Eu passo pelo meu espelho manchado e arranhado. Do pouco que posso me ver, eu realmente pareço bem. Não consigo ver o meu rosto sob os arranhões e manchas escuras, mas também não há muito o que eu possa fazer em relação a ele agora. A roupa parece boa.
Mas talvez eu esteja alguns dias adiantado. Ou algumas poucas horas atrasado. Talvez eu possa até ficar em casa e pensar em ir na próxima. Vai fazer eu parecer como se eu estivesse muito ocupado com algo importante.
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