terça-feira, 1 de setembro de 2020

Torpor

     Eu não sei que dia é hoje, e não me importo o suficiente pra olhar o calendário, nem mesmo o celular ou o computador. É só mais um dia de cansaço. É só mais um dia em que levantar da cama pareceu uma decisão péssima a se tomar. 

    Eu limpo o vidro embaçado depois de um banho quente que falhou em me revigorar. Mais uma vez eu contemplo meus olhos cansados e os círculos escuros que os rodeiam. Sem sorriso, dessa vez - nem amarelo, nem de nenhum outro tipo. Devo ter deixado meu sorriso por aí, em um dos quartos empoeirados que eu não visito mais. Não me lembro da última vez que tive companhia aqui dentro que não fosse a minha, o que é engraçado; eu tendo a acreditar que não sou uma boa companhia pra ninguém, então acostumei a ser a minha própria.


    E, agora que não tolero nem a minha própria companhia, o que fazer?


    Eu não acendo mais as luzes porque meus olhos já se acostumaram. Eu busco sensações novas interagindo sempre do mesmo jeito com as mesmas coisas de sempre. Vagueio pelo corredor da casa mais uma vez, passando meus dedos pelas paredes. Abro a geladeira mil vezes, sempre na esperança de que alguma coisa surja magicamente e me desperte alguma alegria nos 20 minutos em que eu passaria devorando-a. Não surgiu. 
As cortinas grossas e as tábuas sobre a janela não me deixam saber se é noite ou dia. Eu escolhi não me preocupar com isso há muito tempo, mas não saberia dizer quanto tempo faz porque não sei que dia é hoje. 

    Eu decidi ignorar o tempo. A intangibilidade do passado me machuca e a incerteza do futuro me aflige. 
Por isso, eu escolho viver além do badalar dos sinos, do tique-taque do relógio, do gotejar na torneira da cozinha, dos raios brilhantes de sol e do cintilar das estrelas no céu. Eu estou aqui, além da passagem das estações, das datas comemorativas, dos fios de cabelos brancos que surgem. 

    Com os meus olhos cansados e o meu sorriso perdido, eu escolhi ser imortal e morrer milhões de vezes o tempo inteiro.
    Eu sou o gato dentro da caixa, prestes a ser envenenado (ou não), e o cachorro que nunca sente fome até que o sino toque. Infinitésimas partes do infinito, todas condensadas em uma só. 
                Uma ferida que não fecha.
    Uma serpente que nunca troca de pele para virar um dragão, porque não importa quanto tempo passe 

                                                nunca é tempo o suficiente.

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