Em outros tempos eu fui um homem diferente.
Eu era uma pessoa bem relacionada, simpática, sociável. Eu tinha amigos - alguns dos quais já citei em meus textos - e eu era uma pessoa funcional. Eu trabalhava e trabalhava bem.
Algo aconteceu nesse meio tempo, e não sei dizer o que é e nem quando começou, mas eu me perdi de mim mesmo. É engraçado, porque todo mundo sempre disse que eu sou muito quieto, que eu era uma criança quieta.
Mas eu me lembro que minha avó me dizia, sem tirar os olhos da televisão, que eu estava quieto demais. Eu não achava que estava quieto demais, pra mim eu só estava quieto "normal". Digo, se estou em silêncio, como eu poderia ficar mais em silêncio? Eu não sabia, mas aparentemente ela sabia.
Tentava distraí-la conversando sobre alguma descoberta que tinha feito lendo as enciclopédias da estante empoeirada. Ela sorria, sem nunca se distrair do noticiário, e dizia que meu avô teria adorado me conhecer e ver a criança inteligente que eu estava me tornando, mas que ele era ainda mais quieto que eu.
Onde eu me perdi do antigo Rey, daquela pessoa que conseguia lidar com as próprias dores e ainda assim carregar um sorriso no rosto? Eu conseguia ser gentil e prestativo sem me tornar um fardo para os outros, e era motivo para reunir os amigos, não para afastá-los.
Agora a única coisa da qual sou rei é dos escombros e da ferrugem restantes da vida que construí e destruí.
Ainda me resta
alguma força
para me reerguer?
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