Me encontrei com Octavia no apartamento dela. Era a cobertura de um prédio baixo em um bairro de classe média. Embora fosse mal localizado para a maioria, ela era capaz de operar milagres e transformar defeitos em maravilhas, e, assim sendo, ela tornou a luz dos letreiros do prédio em frente na iluminação de seu palco particular.
Não havia muito espaço para mobiliar, mas a pouca mobília era de muito bom gosto - provavelmente comprado a um valor muito alto durante os anos 90. As paredes eram pintadas sabiamente em tons neutros, e sua cor mudava junto com as cores dos letreiros lá fora; no centro da sala, um piano de cauda e um microfone com seu suporte, que não aparentava estar ligado a nada.
Trocamos meia dúzia de palavras antes que ela me convidasse para entrar.
Octavia é, lá no fundo, uma pessoa extremamente sociável. E, lá no fundo, eu não sou.
O fato de Octavia ser uma pessoa muito sanguínea tornou nossa noite repleta de silêncios constrangedores, mas isso não pareceu incomodá-la tanto quanto me incomodou. Bebemos uma ou duas garrafas de sua bebida favorita, conversamos trivialidades em diálogos truncados como dois adolescentes nervosos em seu primeiro encontro, e eu logo me vi ansioso por ir embora ou dar um fim menos dramático a essa situação.
Levantei-me do sofá e sentei-me ao piano. Sem se levantar, ela me acompanhou com olhos curiosos e um sorriso no canto da boca, o que fazia sua cicatriz na bochecha aparecer um pouco mais nitidamente. Arrisquei algumas notas, mas falhei em todas - traído pelas minhas próprias mãos. Rimos juntos, mas o meu riso era de vergonha.
Ela se levantou e caminhou até o microfone de maneira solene, e cantarolou meia dúzia de notas.
Toquei o instrumento novamente, errando menos notas que antes, e ela acompanhava com a voz cada uma das cordas que vibrava dentro da grande estrutura do piano. Eu não sabia mais se estava errando ou acertando as notas, porque dentro da minha mente só havia a voz dela.
E quanto mais ela cantava, menos coisas pareciam existir ao nosso redor. Em um dado momento eu só podia vê-la, sua pele acobreada refletindo o rosa e o azul e o verde das luzes lá fora.
Eu já não tocava mais o piano quando ela parou de cantar, e quando ela parou, sorriu inocentemente para mim. Sentou ao meu lado, perguntando se eu queria mais uma canção.
E ela sequer podia imaginar que essa canção - a primeira de todas - jamais sairia da minha cabeça.
Confesso que estava atordoado. Era uma enxurrada de sensações percorrendo todos os meus nervos amortecidos pelas últimas décadas de reclusão e marasmo. Entenda, é muito complicado lidar com novas sensações, com coisas acontecendo no aqui e agora quando você passa tanto tempo acostumado a sentir só o passado. Eu quis ir embora, e ela não me impediu; mas, em vez de me levar até a porta, me ofereceu o quarto de hóspedes.
Dava para perceber que o quarto não era usado há algum tempo, mas também era possível reparar que não era um cômodo esquecido, visto que estava limpo e bem cuidado. Eu dormi até o cair da noite seguinte.
Tenho que me lembrar de não beber desse jeito nunca mais.