quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Sanguíneo

Era uma noite fria, ou ao menos eu acho que era, porque a maioria das pessoas usavam algumas camadas de roupa, mesmo que muitas não estivessem de casaco.

Me encontrei com Octavia no apartamento dela. Era a cobertura de um prédio baixo em um bairro de classe média. Embora fosse mal localizado para a maioria, ela era capaz de operar milagres e transformar defeitos em maravilhas, e, assim sendo, ela tornou a luz dos letreiros do prédio em frente na iluminação de seu palco particular.
Não havia muito espaço para mobiliar, mas a pouca mobília era de muito bom gosto - provavelmente comprado a um valor muito alto durante os anos 90. As paredes eram pintadas sabiamente em tons neutros, e sua cor mudava junto com as cores dos letreiros lá fora; no centro da sala, um piano de cauda e um microfone com seu suporte, que não aparentava estar ligado a nada.

Trocamos meia dúzia de palavras antes que ela me convidasse para entrar.
Octavia é, lá no fundo, uma pessoa extremamente sociável. E, lá no fundo, eu não sou. 

O fato de Octavia ser uma pessoa muito sanguínea tornou nossa noite repleta de silêncios constrangedores, mas isso não pareceu incomodá-la tanto quanto me incomodou. Bebemos uma ou duas garrafas de sua bebida favorita, conversamos trivialidades em diálogos truncados como dois adolescentes nervosos em seu primeiro encontro, e eu logo me vi ansioso por ir embora ou dar um fim menos dramático a essa situação.

Levantei-me do sofá e sentei-me ao piano. Sem se levantar, ela me acompanhou com olhos curiosos e um sorriso no canto da boca, o que fazia sua cicatriz na bochecha aparecer um pouco mais nitidamente. Arrisquei algumas notas, mas falhei em todas - traído pelas minhas próprias mãos. Rimos juntos, mas o meu riso era de vergonha.

Ela se levantou e caminhou até o microfone de maneira solene, e cantarolou meia dúzia de notas. 

Toquei o instrumento novamente, errando menos notas que antes, e ela acompanhava com a voz cada uma das cordas que vibrava dentro da grande estrutura do piano. Eu não sabia mais se estava errando ou acertando as notas, porque dentro da minha mente só havia a voz dela. 
E quanto mais ela cantava, menos coisas pareciam existir ao nosso redor. Em um dado momento eu só podia vê-la, sua pele acobreada refletindo o rosa e o azul e o verde das luzes lá fora.

Eu já não tocava mais o piano quando ela parou de cantar, e quando ela parou, sorriu inocentemente para mim. Sentou ao meu lado, perguntando se eu queria mais uma canção.

E ela sequer podia imaginar que essa canção - a primeira de todas - jamais sairia da minha cabeça.

Confesso que estava atordoado. Era uma enxurrada de sensações percorrendo todos os meus nervos amortecidos pelas últimas décadas de reclusão e marasmo. Entenda, é muito complicado lidar com novas sensações, com coisas acontecendo no aqui e agora quando você passa tanto tempo acostumado a sentir só o passado. Eu quis ir embora, e ela não me impediu; mas, em vez de me levar até a porta, me ofereceu o quarto de hóspedes.

Dava para perceber que o quarto não era usado há algum tempo, mas também era possível reparar que não era um cômodo esquecido, visto que estava limpo e bem cuidado. Eu dormi até o cair da noite seguinte.

Tenho que me lembrar de não beber desse jeito nunca mais.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Inícios e Fins

Prezada Vanessa,

Hoje abri novamente as anotações de minha bisavó.

"A serpente morde a própria cauda. Rasteja sobre sua própria barriga, devora mais um pouco de si.
Absorve sua própria essência.

Metamorfoseia-se.

É menos serpente por ter sido devorada ou é algo a mais por ter devorado a serpente?"

Naturalmente, me lembrei de você ao ler isso. 
Você, de todas as pessoas, sempre encrencou com a máxima "Sou a Besta para que a Besta não me torne", porque você enxerga um paradoxo descomunal onde há um simples conflito; e não a culpo por isso, já que não faz parte de sua natureza.

Você escolheu não entender quando decidiu trilhar o caminho que você segue hoje - e tudo bem que seja assim; você jamais precisou ser Besta ou serpente, e me faz sorrir lembrar que existem pessoas como você no mundo.
Somos, contudo, filhos da mesma maldição, não importa quão distintas sejam nossas escolhas: estamos fadados a sofrer constante mudança sem jamais perder a nossa essência.
Somos a mesma caminhada noturna de outono em uma paisagem que nunca para de mudar. 
Éramos serpentes ávidas por abocanhar a própria cauda, e, ao buscar sermos mais do que já eramos

nos perdemos

um


do



 outro.


Você pode não acreditar, mas eu abriria mão de ser um dragão se pudesse rastejar contigo novamente.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Octavia

Enquanto alguns debatem se você é não uma impostora se mascarando como um sangue que não é seu, se você é ou não uma degenerada ou uma desgarrada, eu não estou aqui para questionar a sua identidade e nem a sua índole.

Estou aqui, Octavia, para te lembrar que, independente do rótulo, nós somos aberrações colocadas no mundo contra nossas vontades. Não pedimos para nascer, e ainda assim buscamos qualquer propósito para continuar existindo que seja mais do que...só sobreviver. 

Ultimamente, tenho ouvido suas canções ecoarem incessantemente dentro da minha cabeça. Uma mera nota aleatória em meu cotidiano me lembra de uma canção inteira, e uma canção me lembra da outra. Quando me dou conta, tudo o que existe na minha cabeça é a sua voz cantando, e eu já não consigo me concentrar em mais nada. O que seria fantástico se eu não tivesse coisas pra fazer.

Eu já não sei mais qual é o meu propósito - se é que algum dia soube - e não consigo me focar para buscar um novo. Eu tento encontrar as respostas pra quem eu sou de verdade, e tudo o que eu encontro são mais perguntas. Veja, eu passei grande parte dessa existência em função dos outros. Agora que estou vivendo por mim e para mim, eu me encontro perdido.

Muitos foram (e ainda são) aqueles que me buscam pelo meu conhecimento. Acreditam que eu tudo sei, e que sou capaz de responder qualquer pergunta, qualquer dúvida, qualquer questionamento; acham que tenho todas as respostas nas minhas mãos. E, enquanto é verdade que tenho vasto conhecimento em muitas áreas - e não ouso pedir perdão pela falta de modéstia - também é verdade que muitas outras deixei de lado. Pouco me desperta interesse saber sobre certas futilidades que movem tanto o mundo dos lobos quanto o do rebanho; por isso, algumas nuances de interações sociais me escapam por entre os dedos. Mas não corro atrás delas; não eu.

Mas o ponto não é esse: o ponto é que, em suas ilusões seguras de acreditar que eu tudo sei, as pessoas ao meu redor jamais se preocuparam em questionar o que elas sabiam. Elas formaram uma identidade para mim em suas mentes, e, ao se sentirem confortáveis com ela, jamais se preocuparam em descobrir quem eu sou de verdade.

Isso as frustra quando descobrem que meu conhecimento não é ilimitado, porque eu deixo de atender às expectativas que elas criaram. E, desconfortáveis em descobrir sua própria ignorância através da minha, culpam-me por não ser quem queriam que eu fosse. Eu aceito - embora relutantemente - este papel de adversário, e o visto com o orgulho ferido, mas com a sensação de dever cumprido. Que todas as vendas caiam e todas as mordaças se afrouxem, e que todos contemplem com júbilo e desespero essa figura sem forma que lhes enriquece em conhecimento do mundo ao mesmo tempo em que os amaldiçoa com a descoberta da amplitude da sua ignorância.

Eles acreditam que fizeram de mim quem eu sou, e lhes horroriza a ideia que o verdadeiro eu não possui forma. Agora que estou livre dessas amarras, me resta descobrir qual forma eu devo tomar.

Mas é tão, tão difícil de tomar qualquer decisão quando você canta incessantemente nos meus ouvidos, Octavia. Tão difícil.

Eu não quero mais só sobreviver. Eu quero mais que isso.
Me cante uma última canção que me faça lembrar do que eu sou.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Abandono

De: Anansi <nancy.albert@vtm.net>
Para: V. LeMarchand <vanessalm@vtm.net>
Data: qua, 10 de abr de 2019 às 13:33
Assunto: sem assunto

Quantas pessoas de fato te abandonaram, e quantas delas só cansaram de ser deixadas de lado? Quantas estiveram a uma ligação, uma mensagem ou um abraço de distância e você deixou tudo ir por água abaixo?

E "você" não é você você, V. É qualquer um.

A minha vida inteira eu chorei por cada pessoa que se foi sem me tocar quantas delas eu deixei ir embora. Eu busquei uma quantidade esmagadora de companhias para tampar esse buraco que fica quando alguém não está mais lá, e tudo em vão. Eu magoei inúmeras pessoas dizendo que queria a companhia delas quando na verdade tudo o que eu queria era não ficar sozinho, porque no fundo eu sei a péssima companhia que eu posso ser.
Eu fui covarde, V. 

Eu já fui abandonado, sim. Às vezes injustamente, ás vezes não. Mas o que tudo isso me custou? 

Se ainda trocássemos e-mails, mensagens ou se eu pudesse falar contigo de qualquer forma, você me diria "procura um terapeuta, Albert". Eu posso ouvir a sua voz me dizendo isso, inclusive, embora eu já não tenha tanta certeza de que a minha memória se parece mesmo com a sua voz de verdade.

Eu deveria sair, encontrar alguém, me alimentar. Mas hoje não.
Hoje não.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Mau presságio

Jen,

Sonhei contigo essa manhã.

Nós subíamos no topo do prédio mais alto da parte mais alta da cidade, porque sabíamos que era a hora.

Sabíamos que aquela era a nossa última noite, a Noite Final das Noites Finais.
Sentamos na beira do prédio. Sentimos a vertigem, que nem sequer sabíamos ser capazes de sentir de novo. O mundo todo estava ali, sob nós.

A sua mão tocou a minha, e vimos os primeiros raios de sol. Eles brilhavam vermelho e laranja e amarelo, e quanto mais numerosos eles se tornavam, mais difícil ficava de olhar qualquer outra coisa, ou sentir qualquer outra coisa que não o calor sobre a pele.

Começou fraco.

E então, não havia nada.
Diga a verdade: o que isso significa pra você?

segunda-feira, 4 de março de 2019

29 de agosto de 2016

Eram 18:35 quando despertei.
O cheiro da madeira úmida pregada nas janelas já não me incomoda há muito tempo, mas hoje provavelmente é a primeira vez que paro para fazer essa observação para mim mesmo.

Eu estive pensando em    Existem muitas outras coisas que já não me incomodam há muito tempo, mas ainda há muito na minha mente; e há muito eu não parava para reparar nas pequenas coisas. Em como elas me afetam, ou como deixaram de me afetar - as minúcias do dia a dia.

Me olho no espelho, como sempre faço após levantar. Normalmente eu enxergaria, no meu reflexo, apenas um invólucro, uma carcaça que carrega o que restou da minha alma para cima e para baixo. Mas não hoje. Hoje eu vejo só um homem cansado, um homem que se desconectou de tudo e agora sofre ao tentar buscar tudo o que perdeu. Eu vejo olhos caídos e um sorriso amarelo. Ao menos eu ainda consigo sorrir

O ar está diferente nessa noite de hoje. Estagnado, denso. Como quando uma tempestade está prestes a chegar. Como costumava ficar  Eu sinto a umidade lamber a minha pele fria, e de repente eu me sinto menos confortável do que estava sob as minhas cobertas. Levantar certamente foi um plano ruim.

Hoje eu decidi não sair de casa: não pela falta de interesse nas coisas lá fora, mas provavelmente porque hoje não sou boa companhia. Aproveito este sinal como uma oportunidade de fazer as pazes com o meu lar e buscar conforto nele novamente. Como eu já disse, nas pequenas coisas.
Não é difícil ouvir, na minha cabeça, Vanessa dizendo que eu deveria sair mais e largar essa vida de aranha na teia o dia inteiro. Ela certamente teria me convidado para curtir a brisa noturna ou caminhar até a praia despretensiosamente, apenas para eu perceber que era uma armadilha para tomar alguns (vários, na verdade) drinques.
As chamas das velas estão trêmulas, mesmo que não haja ar corrente dentro de casa.

Eu sinto que deveria fazer isso mais vezes. Buscar me sentir confortável com o que está à minha volta. Botar o lixo pra fora, descobrir de novo os cheiros, as texturas, os sons. E você? O que acha? Não me parece o tipo de coisa que você faria, mas imagino que te faria muito bem mudar um pouco. Já faz quase 20 anos. 

Não sei como escrever uma despedida aqui, desculpe. Nada parece apropriado o suficiente.

A.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Sobre ensinar novos truques a um cão velho

Criança,

Em todos esses anos que desapareci, tenho trabalhado em mim mesmo. Como eu percebo o mundo ao meu redor, como eu permito que ele interaja comigo e como eu respondo aos seus estímulos. 
É um trabalho constante, cansativo e interminável, mas nem por isso deixa de ter seus prazeres e satisfações. 
Não tenho buscado ser uma pessoa melhor para o mundo, nem para mim mesmo. Não, não eu; de todas as pessoas, você me conhece suficientemente bem para saber que eu não faria isso.

Tenho buscado ser mais eu mesmo. Um dia de cada vez, cada dia um pouco mais. Até que eu não precise mais me esforçar ou sofrer.
Quanto a você, criança, eu te deixei para trás. No primeiro momento, não o fiz porque eu queria, mas porque era necessário - e por muitas noites eu me arrependi. Mas não mais. Porque você não precisa de mim, como eu não preciso de você. E é exatamente por isso que te escrevo.


Depois de todos esses anos, eu finalmente aprendi a me perdoar por tudo o que houve. E, depois de todos esses anos, eu aprendi que não preciso perdoar você.

Essa seria a minha última mensagem para você, mas você provavelmente jamais a receberá.



Rey