sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Sem título #8

     Há algum tempo eu apaguei um e-mail importante da minha caixa de entrada. Era de um amigo de longa data. Eu não abri o e-mail, mas sei do que se tratava: ele queria um reencontro. 

    A essa altura eles já devem ter se reunido, os meus amigos dos tempos de colégio. Não sei o que pretendem com essa reunião depois de tanto tempo, mas eu posso sentir os ventos da mudança soprando para eles na cidade grande. 
    Por aqui o ar continua estagnado, abafado. A torneira continua pingando na pia da cozinha, e eu já não me lembro se parei de contar o gotejar na casa dos 500 ou dos 600, então eu começo de novo, e de novo, e de novo. A umidade já estufou a madeira dos móveis, e as cortinas velhas parecem cada vez mais pesadas em meio ao mofo preto e aos ácaros e à poeira. 

    Eu não sei quanto tempo faz que apaguei aquele e-mail porque eu não sei que dia é hoje, mas me pego pensando em como seria se eu tivesse ido. Será que eles estão bem? Será que todos os meus três amigos estavam (ou estarão?) presentes? 
    A minha casa não sentiria minha falta, a menos que os ratos no sótão tenham desenvolvido algum apego. Já não há comida na despensa para o deleite de formigas e baratas, nem conforto proporcionado pelo ar condicionado. Eu me deparo vestindo as minhas melhores roupas e me sentindo elegante com elas, apesar dos pequenos buracos feitos pelas traças. Ninguém repararia, é claro. Eu sinto a textura do couro falso da minha jaqueta, que descasca e pulveriza ao toque na altura do ombro esquerdo. Eu percebo o aço enferrujando na minha fivela. Um mero detalhe. Me sinto elegante, quase poderoso. 

    Meus amigos ficariam felizes em me ver? Surpresos, talvez? Eu nunca fui o tipo de pessoa que mantém contato por muito tempo. Não sei se eles me reconheceriam, ou mesmo se eles esperariam (ou esperam?) que eu vá. Estou nervoso. Por que estou me arrumando? Eu nem sei a data da reunião. Mas não importa.

            Sair um pouco vai me fazer bem.

    Eu passo pelo meu espelho manchado e arranhado. Do pouco que posso me ver, eu realmente pareço bem. Não consigo ver o meu rosto sob os arranhões e manchas escuras, mas também não há muito o que eu possa fazer em relação a ele agora. A roupa parece boa. 


       Mas talvez eu esteja alguns dias adiantado. Ou algumas poucas horas atrasado. Talvez eu possa até ficar em casa e pensar em ir na próxima. Vai fazer eu parecer como se eu estivesse muito ocupado com algo importante.

domingo, 6 de setembro de 2020

Sem título #9

    Em outros tempos eu fui um homem diferente.

    Eu era uma pessoa bem relacionada, simpática, sociável. Eu tinha amigos - alguns dos quais já citei em meus textos - e eu era uma pessoa funcional. Eu trabalhava e trabalhava bem. 
    Algo aconteceu nesse meio tempo, e não sei dizer o que é e nem quando começou, mas eu me perdi de mim mesmo. É engraçado, porque todo mundo sempre disse que eu sou muito quieto, que eu era uma criança quieta.

    Mas eu me lembro que minha avó me dizia, sem tirar os olhos da televisão, que eu estava quieto demais. Eu não achava que estava quieto demais, pra mim eu só estava quieto "normal". Digo, se estou em silêncio, como eu poderia ficar mais em silêncio? Eu não sabia, mas aparentemente ela sabia.
    Tentava distraí-la conversando sobre alguma descoberta que tinha feito lendo as enciclopédias da estante empoeirada. Ela sorria, sem nunca se distrair do noticiário, e dizia que meu avô teria adorado me conhecer e ver a criança inteligente que eu estava me tornando, mas que ele era ainda mais quieto que eu. 


    Onde eu me perdi do antigo Rey, daquela pessoa que conseguia lidar com as próprias dores e ainda assim carregar um sorriso no rosto? Eu conseguia ser gentil e prestativo sem me tornar um fardo para os outros, e era motivo para reunir os amigos, não para afastá-los. 


    Agora a única coisa da qual sou rei é dos escombros e da ferrugem restantes da vida que construí e destruí.


Ainda me resta 

                alguma força

                            para me reerguer?

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Última luz

     Antes de eu me mudar pra essa casa, onze ou doze anos atrás, eu morava na capital, com seus prédios muito altos e a sua paisagem cinzenta. Foi lá que me desapeguei da claridade matinal e de suas cores vibrantes. Os detalhes parecem supérfluos quando você está lá, só existindo; só o básico merece atenção.

    Uma hora surge a necessidade de se distrair. Surgiu a necessidade de me distrair. Encontrei a distração na forma dos meus vizinhos. No apartamento ao lado morava um homem com seu filho; eu não ousaria chutar a idade de nenhum dos dois, sou péssimo com isso. Mas o garoto, nas poucas vezes em que nos víamos, sempre olhava pra mim sorridente. O pai o repreendia em silêncio e me olhava com dureza, normalmente puxando o garoto pela mão pra dentro de casa ou para as escadas. Deve ser uma dessas coisas de "não interaja com estranhos" que ouvimos quando somos crianças, eu acho. 
    Muito embora as paredes não fossem particularmente grossas e eles morassem no apartamento ao lado, eu pouco ouvia muitos barulhos de lá. Era raro ouvi-los conversando ou rindo. Não havia barulho de televisão ou videogames, nem música de nenhum tipo. Quando muito, mais perto da porta do corredor do que da parede, eu ouvia barulhos de panelas e pratos e talheres. O pouco diálogo era ininteligível para mim.
    Esse homem não me parecia ser uma pessoa rude. Ele me parecia ser uma pessoa cansada - e esse é um semblante que eu conheço bem. Nunca interagimos além de um ocasional "boa noite", normalmente quando eu estava saindo do meu apartamento, no começo da noite, e ele chegando no dele.

    Do outro lado do pequeno corredor morava uma mulher - parecia mais jovem que o homem do apartamento ao lado, mas eu não saberia dizer o porquê. Os dias dela pareciam começar ao anoitecer, assim como os meus. E ela recebia seus amigos e namorados e namoradas e era sempre muito sorridente. Ao contrário do apartamento ao lado, do apartamento dela eu podia ouvir gargalhadas e música e outras coisas. Mas não sempre. Em alguns dias não havia nada pra se ouvir, mesmo sabendo que ela estava lá. Ela parecia muito sorridente, mesmo depois dos dias de silêncio, menos quando ela olhava pra mim - e ela sempre olhava pra mim quando passávamos um pelo outro - o sorriso ia embora e o olhar fugia do meu. Ao contrário do outro vizinho, essa nunca me disse nem um "boa noite", ela apenas dava uma longa tragada em seu cigarro e seguia para dentro de casa.

    Eu, do jeito que eu sou, logo imaginei que o problema pudesse ser comigo. Por que alguém privaria seu filho de um curto diálogo com seu vizinho de anos? Por que alguém perderia seu sorriso ao encontrar alguém com quem nunca interagiu?
    À medida em que o tempo passava, eu me vi prestando menos atenção no básico e mais atenção nos detalhes, buscando maneiras de consertar o que eu nem sabia se estava quebrado ou não. Comprei um quebra-cabeças para o garoto, mas nunca entreguei. Também nunca entreguei o kit de O Pequeno Químico que planejei entregar no Natal - sem nome, sem nada, apenas largado na porta. Nunca entreguei o maço de cigarro mentolado para a mulher do outro lado do corredor. Em vez disso, fumei metade eu mesmo por pura ansiedade.

    Nunca fui bom nesse negócio de boa vizinhança, mas eu claramente me tornei muito bom em esquecer de mim enquanto me distraía devaneando sobre a vida alheia.


    Eu voltei no ano passado ao apartamento para buscar algumas coisas que imaginei estarem perdidas por lá. Com exceção da poeira e do cheiro forte de umidade impregnada nos móveis, nada mudou. Me sentei na poltrona que não foi comigo na mudança e acendi um cigarro mentolado. Por algum motivo os cigarros não foram estragados pelo tempo e nem pela umidade, e eu me engasguei duas ou três vezes com a fumaça enquanto me reclinava na poltrona perguntando que vida meus vizinhos teriam levado durante esses anos todos. Comi mais duas fatias da pizza que havia trazido comigo e dormi vendo a última luz do dia caminhar pelo alto da parede. 

    Acordei horas depois e decidi sair pra espairecer antes de juntar as coisas e voltar pra casa, ainda com minha cara amassada de sono e o cabelo bagunçado. Vesti o meu moletom e acendi outro cigarro. Enquanto eu descia o lance de escadas, pude ouvir outra pessoa subindo. Preparei meu melhor sorriso - que nessa ocasião também seria meu pior sorriso - para uma saudação silenciosa, mas cordial. 

    Ela olhou pra mim e sorriu. E o olhar dela se encontrou com o meu, sem fugir. "Oi! Nossa. Quanto tempo! Você não mudou nada." 
    Silêncio. Parabéns, Rey. Tudo o que eu consegui dizer foi "Uhhhh. Uh-huh." Ela, provavelmente constrangida (mas duvido que tanto quanto eu), me perguntou se eu fumava mentolado. Disse que tinha mudado de marca e de sabor há alguns anos.
    "É pra você", eu disse, entregando o maço com doze cigarros a menos pra ela. Ela riu e agradeceu. Disse que era bom me ver de novo.


    Eu não sabia o que dizer. Dei uma longa tragada no meu cigarro e tornei a descer as escadas. Passei a noite inteira me julgando pelo meu jeito idiota de interagir. Ou de não interagir, sei lá.
    Fui direto me deitar na poltrona quando voltei e não a vi mais. Também não vi o garoto sorridente, que a essa altura já era um adulto (espero que ainda sorridente), nem seu pai com o olhar duro. Esperei a última luz caminhar pela parede mais uma vez antes de recolher minhas coisas e ir embora pra casa.


E foi bom sentir o cheiro de cigarro no corredor.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Torpor

     Eu não sei que dia é hoje, e não me importo o suficiente pra olhar o calendário, nem mesmo o celular ou o computador. É só mais um dia de cansaço. É só mais um dia em que levantar da cama pareceu uma decisão péssima a se tomar. 

    Eu limpo o vidro embaçado depois de um banho quente que falhou em me revigorar. Mais uma vez eu contemplo meus olhos cansados e os círculos escuros que os rodeiam. Sem sorriso, dessa vez - nem amarelo, nem de nenhum outro tipo. Devo ter deixado meu sorriso por aí, em um dos quartos empoeirados que eu não visito mais. Não me lembro da última vez que tive companhia aqui dentro que não fosse a minha, o que é engraçado; eu tendo a acreditar que não sou uma boa companhia pra ninguém, então acostumei a ser a minha própria.


    E, agora que não tolero nem a minha própria companhia, o que fazer?


    Eu não acendo mais as luzes porque meus olhos já se acostumaram. Eu busco sensações novas interagindo sempre do mesmo jeito com as mesmas coisas de sempre. Vagueio pelo corredor da casa mais uma vez, passando meus dedos pelas paredes. Abro a geladeira mil vezes, sempre na esperança de que alguma coisa surja magicamente e me desperte alguma alegria nos 20 minutos em que eu passaria devorando-a. Não surgiu. 
As cortinas grossas e as tábuas sobre a janela não me deixam saber se é noite ou dia. Eu escolhi não me preocupar com isso há muito tempo, mas não saberia dizer quanto tempo faz porque não sei que dia é hoje. 

    Eu decidi ignorar o tempo. A intangibilidade do passado me machuca e a incerteza do futuro me aflige. 
Por isso, eu escolho viver além do badalar dos sinos, do tique-taque do relógio, do gotejar na torneira da cozinha, dos raios brilhantes de sol e do cintilar das estrelas no céu. Eu estou aqui, além da passagem das estações, das datas comemorativas, dos fios de cabelos brancos que surgem. 

    Com os meus olhos cansados e o meu sorriso perdido, eu escolhi ser imortal e morrer milhões de vezes o tempo inteiro.
    Eu sou o gato dentro da caixa, prestes a ser envenenado (ou não), e o cachorro que nunca sente fome até que o sino toque. Infinitésimas partes do infinito, todas condensadas em uma só. 
                Uma ferida que não fecha.
    Uma serpente que nunca troca de pele para virar um dragão, porque não importa quanto tempo passe 

                                                nunca é tempo o suficiente.