Antes de eu me mudar pra essa casa, onze ou doze anos atrás, eu morava na capital, com seus prédios muito altos e a sua paisagem cinzenta. Foi lá que me desapeguei da claridade matinal e de suas cores vibrantes. Os detalhes parecem supérfluos quando você está lá, só existindo; só o básico merece atenção.
Uma hora surge a necessidade de se distrair. Surgiu a necessidade de me distrair. Encontrei a distração na forma dos meus vizinhos. No apartamento ao lado morava um homem com seu filho; eu não ousaria chutar a idade de nenhum dos dois, sou péssimo com isso. Mas o garoto, nas poucas vezes em que nos víamos, sempre olhava pra mim sorridente. O pai o repreendia em silêncio e me olhava com dureza, normalmente puxando o garoto pela mão pra dentro de casa ou para as escadas. Deve ser uma dessas coisas de "não interaja com estranhos" que ouvimos quando somos crianças, eu acho.
Muito embora as paredes não fossem particularmente grossas e eles morassem no apartamento ao lado, eu pouco ouvia muitos barulhos de lá. Era raro ouvi-los conversando ou rindo. Não havia barulho de televisão ou videogames, nem música de nenhum tipo. Quando muito, mais perto da porta do corredor do que da parede, eu ouvia barulhos de panelas e pratos e talheres. O pouco diálogo era ininteligível para mim.
Esse homem não me parecia ser uma pessoa rude. Ele me parecia ser uma pessoa cansada - e esse é um semblante que eu conheço bem. Nunca interagimos além de um ocasional "boa noite", normalmente quando eu estava saindo do meu apartamento, no começo da noite, e ele chegando no dele.
Do outro lado do pequeno corredor morava uma mulher - parecia mais jovem que o homem do apartamento ao lado, mas eu não saberia dizer o porquê. Os dias dela pareciam começar ao anoitecer, assim como os meus. E ela recebia seus amigos e namorados e namoradas e era sempre muito sorridente. Ao contrário do apartamento ao lado, do apartamento dela eu podia ouvir gargalhadas e música e outras coisas. Mas não sempre. Em alguns dias não havia nada pra se ouvir, mesmo sabendo que ela estava lá. Ela parecia muito sorridente, mesmo depois dos dias de silêncio, menos quando ela olhava pra mim - e ela sempre olhava pra mim quando passávamos um pelo outro - o sorriso ia embora e o olhar fugia do meu. Ao contrário do outro vizinho, essa nunca me disse nem um "boa noite", ela apenas dava uma longa tragada em seu cigarro e seguia para dentro de casa.
Eu, do jeito que eu sou, logo imaginei que o problema pudesse ser comigo. Por que alguém privaria seu filho de um curto diálogo com seu vizinho de anos? Por que alguém perderia seu sorriso ao encontrar alguém com quem nunca interagiu?
À medida em que o tempo passava, eu me vi prestando menos atenção no básico e mais atenção nos detalhes, buscando maneiras de consertar o que eu nem sabia se estava quebrado ou não. Comprei um quebra-cabeças para o garoto, mas nunca entreguei. Também nunca entreguei o kit de O Pequeno Químico que planejei entregar no Natal - sem nome, sem nada, apenas largado na porta. Nunca entreguei o maço de cigarro mentolado para a mulher do outro lado do corredor. Em vez disso, fumei metade eu mesmo por pura ansiedade.
Nunca fui bom nesse negócio de boa vizinhança, mas eu claramente me tornei muito bom em esquecer de mim enquanto me distraía devaneando sobre a vida alheia.
Eu voltei no ano passado ao apartamento para buscar algumas coisas que imaginei estarem perdidas por lá. Com exceção da poeira e do cheiro forte de umidade impregnada nos móveis, nada mudou. Me sentei na poltrona que não foi comigo na mudança e acendi um cigarro mentolado. Por algum motivo os cigarros não foram estragados pelo tempo e nem pela umidade, e eu me engasguei duas ou três vezes com a fumaça enquanto me reclinava na poltrona perguntando que vida meus vizinhos teriam levado durante esses anos todos. Comi mais duas fatias da pizza que havia trazido comigo e dormi vendo a última luz do dia caminhar pelo alto da parede.
Acordei horas depois e decidi sair pra espairecer antes de juntar as coisas e voltar pra casa, ainda com minha cara amassada de sono e o cabelo bagunçado. Vesti o meu moletom e acendi outro cigarro. Enquanto eu descia o lance de escadas, pude ouvir outra pessoa subindo. Preparei meu melhor sorriso - que nessa ocasião também seria meu pior sorriso - para uma saudação silenciosa, mas cordial.
Ela olhou pra mim e sorriu. E o olhar dela se encontrou com o meu, sem fugir. "Oi! Nossa. Quanto tempo! Você não mudou nada."
Silêncio. Parabéns, Rey. Tudo o que eu consegui dizer foi "Uhhhh. Uh-huh." Ela, provavelmente constrangida (mas duvido que tanto quanto eu), me perguntou se eu fumava mentolado. Disse que tinha mudado de marca e de sabor há alguns anos.
"É pra você", eu disse, entregando o maço com doze cigarros a menos pra ela. Ela riu e agradeceu. Disse que era bom me ver de novo.
Eu não sabia o que dizer. Dei uma longa tragada no meu cigarro e tornei a descer as escadas. Passei a noite inteira me julgando pelo meu jeito idiota de interagir. Ou de não interagir, sei lá.
Fui direto me deitar na poltrona quando voltei e não a vi mais. Também não vi o garoto sorridente, que a essa altura já era um adulto (espero que ainda sorridente), nem seu pai com o olhar duro. Esperei a última luz caminhar pela parede mais uma vez antes de recolher minhas coisas e ir embora pra casa.
E foi bom sentir o cheiro de cigarro no corredor.